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OUT
31
 
 VIDAS - ISABEL STILWELL: "TENHO NETOS QUE ME ESCOVAM O CABELO, MAQUILHAM, CONVERSAM, INSPIRAM"
Ao lado da filha e de três dos 12 netos, a escritora explica porque revisitou a vida de D. João II, um rei tão visionário quanto complexo, no seu 14º livro, abre o coração sobre as novas gerações.


Ao chegar ao seu 14.º livro, decidiu eleger D. João II como protagonista de um novo romance histórico. O que a atraiu nesta figura incontornável da História de Portugal?
Era um bocadinho incontornável. É um dos nossos reis mais importantes e está muito presente na escola. E porque, quando escrevo sobre uma figura masculina, procuro sempre homens que tiveram à sua volta mulheres que foram determinantes. A tia e a irmã, D. Filipa, vai desempenhar um papel extraordinário naquilo que ele se vai tornar e, portanto, conjugando tudo, era irresistível.


Depois de toda a investigação que realizou e de se aprofundar na vida e no legado desta figura histórica, mantém a convicção de que D. João II merece o cognome de 'Príncipe Perfeito'?
Não merece de certeza, porque acho que ninguém merece, não é? Infelizmente ou felizmente, somos todos muito complexos. Eu acho que ele é um homem muito complexo, com algumas coisas muito corajosas, com muita inteligência e muita visão e, portanto, nós, portugueses, temo-lo em alta consideração, porque soube aproveitar o conhecimento que havia na sua época para nos dar tudo aquilo que os Descobrimentos trouxeram a Portugal. Portanto, tem um mérito enorme, e acho que ele inaugura, de certa maneira, a meritocracia. Ao contrário do seu pai, que favoreceu sempre que o rodeou, Dom João vai procurar as pessoas que mais mérito têm nas suas áreas. Além disso, ele tinha um plano e pô-lo em prática.


Uma obra desta natureza exige um trabalho de investigação profundo e rigoroso. Como se desenrola esse processo, desde o primeiro contacto com as fontes até ao momento em que sente que reuniu toda a informação necessária para dar vida à história?
A primeira parte é ler o que foi escrito. E nós temos a sorte de termos dois cronistas contemporâneos extraordinários, Garcia de Resende e Rui de Pina. Mas as fontes têm que ser confrontadas para não termos uma visão só laudatória e pouco realista. Depois vou descobrindo personagem que se cruzam e sobre as quais já escrevi anteriormente, como Dom Manuel, Filipe de Lencastre ou Isabel de Borgonha, o que me entusiasma muito, é como encontrar novas facetas de velhos conhecidos. Todos os portugueses sabem quem foi Dom João II e quem foi Santa Joana Princesa, mas nem sempre se sabe que forma 2 irmãos que ficaram órfãos com 3 meses e 3 anos e, por isso, apesar de terem seguido caminhos completamente diferentes com muita determinação, eram absolutamente inseparáveis. Essa cumplicidade foi enorme até ao fim das suas vida. Por exemplo, quando percebi que, depois da guerra, Dom João entra pelo convento e diz eu “tiro-te daqui, nem que tenha de te arrastar pelos cabelos” - um bruto, portanto - mas ao mesmo é para a irmã que ele corre quando se vê em apuros, ou quando entrega o seu filho bastarda, que estava em perigo à irmã, e ela o aceita. Esse amor incondicional, incondicional que é tão bonito de encontrar e que alimenta a história .


E como é que se consegue encontrar o equilíbrio entre a liberdade criativa da ficção e o rigor dos factos históricos, dando espaço à imaginação sem correr o risco de distorcer a realidade?
Tendo sido jornalista, cruzo factos e quero que eles batam todos certo. É como quando queremos entrevistar os protagonistas e confrontar as suas histórias para tirar uma bissetriz do que mais se aproxima da verdade. Depois há hiatos onde temos que pôr hipóteses, não é? E aí eu acho que nós, quando conhecemos muito bem os personagens e ficamos muito íntimos deles, começamos a pensar quase pela cabeça deles e a imaginar o que sentiriam. Mesmo perante atitudes que nós esperamos não ter recursos emocionais para entender - por exemplo, quando Dom João mata com as próprias mãos um cunhado de 19 anos. Depois de se perceber a complexidade da narrativa, consegue-se justificar os seus atos.


Os livros têm trazido a oportunidade de conhecer e de se relacionar com as pessoas, seja leitores anónimos ou ilustres conhecidos, como o Duque e a Duquesa de Edimburgo, com os quais esteve recentemente. Como têm sido essa experiência?
Quando eu entrei para o para o jornalismo, em 1981, para o ‘Diário de Notícias’ estava tudo em polvorosa. Eram aqueles tempos quentes do ‘pós-revolução’. Estávamos em plenários até às tantas da noite. Quando acabei o meu estágio, o diretor perguntou-me se eu queria ir para a política nacional. Era um elogio, era onde toda a gente queria estar naquele momento quente. E quando eu disse que ‘não’, que queria ir para a Sociedade, foi assim como se descesse uns degraus na consideração dele ou na opinião dos outros em geral. Mas o que eu gosto é de pessoas. Eu gosto de ouvir as pessoas, gosto das suas histórias. Foi por isso que eu fui para o jornalismo e isto agora é a mesma coisa. Quem se chega a mim é para contar a sua história: como se sentiu quando leu o livro, como o identifica com momentos da sua vida em particular. Lembro-me de uma mulher que me escreveu a dizer que tinha perdido várias gravidezes e que ler ‘D. Catarina de Bragança’ lhe tinha trazido um conforto enorme. Perceber que a dor dela sempre tinha existido, noutras mulheres. As vidas do passado trazem-nos um imenso retorno. Também gosto de ouvir os mais novos a dizer que por causa de um livro destes passaram a gostar de história, ou que fizeram um teatro em que eram a Inês de Castro. Acho uma pena a forma como a História é ensinada nas escolas. Os miúdos ainda têm de decorar não sei quantas páginas mas muitas vezes não lhes é contado que, antigamente, havia pessoas iguais a nós.


O mundo mudou profundamente e, com ele, mudaram também as preocupações, as prioridades e os desafios das gerações mais jovens. Tendo também essa dupla perspetiva de mãe e avó, como vê a forma como esta nova geração encara a vida, o futuro e o mundo que a rodeia?
Tendo em conta que o 13º neto está a caminho, acho que já tenho um bom universo para sondagens! Há pouco tempo a ‘Scientific American’ tinha uma manchete que dizia que, afinal, os nossos jovens estão fantásticos. Comprei a revista num aeroporto de propósito para ler aquilo, mas anda sempre toda a gente a dizer que eles estão tão mal, mas parece que afinal não é bem assim. Entre outras coisas, o artigo expunha um estudo anterior à pandemia que mostrava que os jovens de 20 anos estavam menos empáticos que a geração anterior, mas esse estudo foi repetido recentemente, com a mesma equipa, e mostrou o oposto: a empatia nunca esteve tão alta. Também mostrava que a saúde mental dos jovens não está pior, a diferença é que eles hoje sabem dar nome aquilo que sentem. O mais extraordinário é que, ao contrário do primeiro, este estudo teve uma enorme dificuldade para ser divulgado. Nós na comunicação social temos muita responsabilidade neste tipo de ideias e na forma como se propagam. O que noto é que a geração dos meus filhos é mais sensível ao que os seus filhos sentem. E dão-lhes ferramentas muito melhores para lidarem com isso. A parentalidade autoritária, como bem sabemos, nunca produziu bons resultados.


E com uma avó muito ativa que escreve que viaja, que mantém uma série de uma rede intensa de contactos. Como é que como é que concilia? Como é que consegue ser avó, uma avó presente?
Tenho netos que me escovam o cabelo, maquilham, conversam, inspiram! É muito bom termos pessoas que gostam de nós porque, além de nos darem uma sensação de pertença que não depende do aplauso exterior, são elas que constantemente nos dizem a verdade! Toda as pessoas que têm filhos sabem do que falo. Não nos pode subir nada à cabeça, porque em dois minutos eles vão dão cabo de qualquer vaidade. Esse equilíbrio entre o amor incondicional e o acolhimento, sentir que sou importante para aqueles que me importam e, simultaneamente saber quais são os meus limites e os meus defeitos, é aquilo que acho que me torna a pessoa que sou. Depois, dão-nos uma energia enorme para fazermos mais coisas


Mudou muita coisa em si depois de ser avó?
Mudou tudo. Depois das gémeas (as mais velhas, agora com 16 anos) terem nascido escrevi um texto na ‘Pais e Filhos’ em que perguntava se os avós ainda podem usar sapatos ténis. Porque acontece assim de repente. É um susto enorme! Do género ‘já não posso ser como o Peter Pan’, eu já sou avó!’. Todavia, acho que os netos são a maior terapia anti-envelhecimento que existe, porque nós voltamos com uma disponibilidade física maior, menos cansados, com noites mais bem dormidas do que os pais. Eles mostram-nos o mundo como se fosse pela primeira vez. Uma das gémeas perguntou-me um dia se os pombos tinham cachecóis e eu acho que não olhava para um pombo há 300 anos, porque nesse momento voltei a olhar e realmente eles têm as penas verdes à volta do pescoço, que parecem cachecóis. Obrigam-nos a maravilharmo-nos com o Mundo outra vez. E são tão extraordinários que é impossível ser-se pessimista vendo que miúdos espetaculares são… não são só os meus netos, são muitos outros ‘netos’ que vou conhecendo. O mundo não pode estar perdido, porque são estes que vão fazer dele um lugar melhor.