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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
IDEIAS PARA INCENTIVAR A LER E A ESCREVER
Publicado em: 27/10/2026
A leitura depende de ligações no cérebro que acontecem mais facilmente numas cabeças do que noutras, e se é evidente que a motivação e o treino são fundamentais.
Querida Mãe,
Quando as minhas filhas eram pequeninas, uma das formas mais estimulantes de aprenderem a ler e a escrever acontecia quando estávamos no carro e queriam por a tocar uma música ou mandar uma mensagem a perguntar se um amigo podia ir lá a casa brincar com elas.
Com as mãos ocupadas a guiar, eu dizia-lhe: “Pega no telefone e escreve o que te vou dizer.” Todas essas pequenas práticas ensinavam-lhes a utilidade e o poder das palavras. Quando o meu filho chegou à mesma idade e lá do banco de trás me perguntou: “Mãe, como é que se chama aquela música do Sol?” Eu sorri, coloquei a minha voz mais pedagógica e disse-lhe: “Querido, chama-se ‘O Sol’, é do Viktor Kley, e escreve assim… “O”… depois o espaço…” e oiço em resposta: “OK”, e logo depois “Google toca 'O Sol' do Viktor Key”. E a música apareceu.
Há anos que a mãe fala publicamente sobre formas de promover a leitura e a escrita na infância, e já sabíamos que até para nós está mais difícil ler um livro quando temos a concorrência de séries viciantes que exigem zero esforço, mas o PISA veio mostrar como essa batalha é tão necessária, agora mais do que nunca.
Por isso, aqui ficam as minhas cinco ideias para incentivar os miúdos da geração 5G a ler/escrever, a entenderem a verdadeira utilidade deste “exercício” para o seu dia-a-dia, apesar de viverem num mundo onde podem “dar ordens” verbais e obter resultados em frações de segundo.
#1 Se tem um filho/a muito resistente à leitura e à escrita não comece por ler-lhe livros, muito menos a pedir-lhe que os leia. Faça o contrário, leia livros à frente dele! Prove-lhe, sem precisar de palavras, que ler dá prazer, e ele vai ter curiosidade e vontade de aceder à mesma emoção.
#2 Compre ímanes de letras para o frigorífico. Todos os dias escreva, por exemplo, “João, está no (ou na) _______” e substitua a última palavra por um sítio “no carro”, “na cama, no frigorifico, no forno, na mesa, etc.”, colocando uma moeda de cinco cêntimos nesse lugar escondido. Durante alguns dias deixe quase todas as mesmas palavras, mas depois vá variando.
#3 Numa folha escreva várias palavras. Diga a palavra e ele/a tem de a apontar o mais rápido que conseguir.
#4 Jogo das matrículas. No carro, ler a matrícula do veículo da frente e dizer palavras que comecem com essas letras.
#5 Criar-lhe um e-mail. Enviar mensagens para o e-mail dele com frases muito simples e curtas e peça-lhe para responder. Tem a vantagem de saltar o passo de escrever à mão — principalmente se está na escola a aprender caligrafia em que provavelmente sente dificuldade, o teclado pode ser um alívio, dissociando temporariamente o esforço da escrita do prazer da escrita.
Mãe, mais ideias?
***
Querida Ana,
Percebi à minha própria custa, e depois enquanto mãe, que aprender a ler e a escrever é um verdadeiro milagre. Um milagre que depende de ligações no cérebro que acontecem mais facilmente numas cabeças do que noutras, e se é evidente que a motivação e o treino são fundamentais, também é verdade que exige um esforço muito maior nalgumas cabeças. Como acontecia na minha e na do teu irmão, enquanto tu nunca tiveste dificuldade nenhuma.
Mas o que me movia era o desejo de escrever cartas aos meus irmãos, de passar a escrito as histórias que tinha na cabeça, de despejar confidencias num diário, mesmo muito nova, por isso tendo a pensar que este desejo de comunicar e de nos fazermos entender é quase inato.
Mas queres uma ideia que concorra com as novas tecnologias e torne um livro irresistível? Continuo a dar-te a que resultou comigo: sentar um filho ao colo e ler-lhe um livro que o apaixonou com a mesma idade. Quando a criança começar a dominar a leitura, leia um capítulo e peça-lhe que leia o seguinte, antes da próxima noite — apesar das minhas dificuldades, ficava tão envolvida na história que, a certa altura, acabava por ler o livro todo até ao fim.
Mas, Ana, o importante é o colo. Se crescermos a associar os livros a estar aconchegado nos braços das nossas mães, nunca na vida vamos deixar de ler.
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