CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 UM PAÍS DE DESCONFIADOS
Publicado em: 14/10/2026
O que nos falta é “capital social” que torna possível cooperarmos, pondo de lado os nossos interesses individuais quando está em causa o bem comum.


“Já recebemos o seu currículo”, diz a voz do outro lado do número desconhecido que em má hora decidi atender. Enquanto desligo imediatamente sinto a raiva sufocar-me. Como é que é possível que haja gente tão má, tão má, que ande a tentar tirar proveito do desespero dos outros? Porque se eu estivesse desempregada e tivesse enviado uma centena de CV na ânsia de encontrar trabalho, não cortaria de certezinha absoluta a chamada por ali. Sentiria a taquicardia da esperança e ficaria à espera mais uns segundos, provavelmente caindo na esparrela ali montada. Imagino sempre a desilusão e o desânimo, a irritação consigo mesmo, de quem toma consciência de que estão a tentar aproveitar-se da sua fragilidade. De que foram estupidamente ingénuos.
Fico mesmo zangada quando alguém contribui para tornar os outros mais desconfiados, mais “queimados”, menos crentes na bondade de quem os rodeia. Roubar a inocência é um pecado mortal, e pela minha parte prefiro, apesar de tudo, ser enganada de vez em quando do que passar a vida a suspeitar de toda a gente. E mantinha a ilusão de que era assim que a maioria dos portugueses pensava até escutar as revelações do politólogo Pedro Magalhães no “(Im)pertinente”, um podcast da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em conversa com Luana do Bem.
Caramba, na vaga de 2017-2020 do European Values Study — portanto, ainda antes da pandemia e dos discursos xenófobos terem tomado o palco —, Portugal era o segundo país europeu com mais gente desconfiada, de entre os 34 países incluídos no estudo, só atrás da Albânia. Isto significa que quando perguntaram “De uma forma geral, acha que se pode confiar na maioria das pessoas ou, pelo contrário, acha que todo o cuidado é pouco?”, a esmagadora maioria dos nossos queridos concidadãos, nada mais, nada menos do que 83%, respondeu que “todo o cuidado é pouco”. São oito em cada dez de pé atrás! Fiam-se aparentemente na família e nos amigos mais próximos, diz Pedro Magalhães, mas aqui para nós a avaliar pelos níveis de violência doméstica que tanto nos envergonham, nem isso. Pelos vistos, cada um de nós acha-se a única pessoa de bem neste retângulo.
As consequências práticas deste partir do princípio que o outro está ali para nos enganar explicam todos ou quase todos os nossos problemas, e por oposição o sucesso de países como os escandinavos, onde são 70% aqueles que confiam. Explicam porque é que Portugal é o reino da burocracia, em que há comissões para vigiar as comissões, numa cadeia hierárquica ineficiente e cheia de entropias, leis que nunca mais acabam com um articulado infinito para prever todas as armadilhas, que paralisam a economia e a justiça, com um desperdício enorme de recursos. Explica porque é que somos, também, o país da Europa (não apenas da UE) em que menos pessoas praticam voluntariado, sempre certos de que toda a gente abusa de subsídios e apoio. O que nos falta, conclui Pedro Magalhães, é “capital social” que torna possível cooperarmos, pondo de lado os nossos interesses individuais quando está em causa o bem comum.
Pedro Magalhães diz mais uma coisa fundamental~— a desconfiança herda-se e medra no berço, e os estudos indicam que as mães são as principais responsáveis por nos tornarmos (ou não) portadores desta doença. Obrigada, mãezinha, por se ter revoltado sempre contra os papéis selados de 25 linhas e os mil carimbos que eram exigidos para tudo. Dizia que, de onde vinha, bastava a palavra. Espero que me tenha passado genes suficientes para me ajudar a resistir a esta epidemia, porque mais uma semana da amoralidade de Donald Trump e temo sucumbir ao mal nacional.