CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 A QUE SE DEVE A NOSSA ÂNSIA CONSUMISTA?
Publicado em: 14/10/2026
Eu sei que já falámos aqui sobre a culpa eterna das mães, mas o que lhe quero demonstrar hoje é que não está restrita à maternidade. Acho que todos sofremos dela.


Querida Mãe,

Consegui organizar-me e em vez de enviar os lanches dos miúdos nos pacotes comprei caixas organizadas e bonitas. Fiquei tão orgulhosa a olhar para as lancheiras deles — depois senti-me culpada por ter comprado mais coisas de plástico.

Senti-me super orgulhosa por ter o armário todo arrumadinho e destralhado. Depois senti-me culpada quando fui colocar as roupas ao contentor e vi que estava a abarrotar e que não estou a dar roupa porque alguém precisa realmente dela, mas porque me alivia o armário, a consciência e muitas vezes abre espaço para roupa nova.

Acedi entusiasticamente quando os meus filhos quiseram comprar uma garrafa reutilizável de água, mas senti-me mega culpada quando, de repente, apareceu outro modelo qualquer que está na moda e pediram-me que lho oferecesse nos anos. Percebi que tínhamos caído em mais uma ratoeira de consumo.

Achei incrível comprar um saco de pano para não andar com os de plástico, mas, logo a seguir, constatei que os sacos de pano passaram a ter designs diferentes e que queremos sempre um outro, porque “aquele é lindo!”.

Orgulho-me de ver os meus filhos a florescer no desporto, no teatro e na música, mas sinto-me culpada porque isso exige muito mais quilómetros de carro.

Sonho, tal e qual como os meus filhos, pelo prazer das viagens, de preferência à volta do mundo, mas depois sinto-me culpada por tudo o que implica para o ambiente.
Pronto, mãe, eu sei que sim, que já falámos aqui sobre a culpa eterna das mães, mas o que lhe quero demonstrar hoje é que não está restrita à maternidade. Acho que todos sofremos dela. Uma culpa inútil porque não nos leva a agir muito para além daquilo que é o nosso conforto mais imediato.

É difícil ser boa pessoa, mas é ainda mais difícil quando não se sabe exatamente o que implica ser boa pessoa, e tantas vezes caímos em mais um loop de consumismo, mesmo que com a melhor das intenções. Como é que conseguimos prever todas as consequências de cada uma das milhares de escolhas que nos dão?

Mãe, e depois estranhamos que os níveis de ansiedade estejam a aumentar.

***

Querida Ana,

A tua carta teve um efeito estranhíssimo sobre mim, suspeito que exatamente o oposto daquele que querias. A sério, senti uma vontade enorme de destralhar armários, de arrumar camisolas por tamanhos e cores e organizar as prateleiras da dispensa, mas — também! — de ir comprar caixas e caixinhas para que tudo fique com aquele ar de revista, ou para te mostrar como estou atualizada, de Pinterest.

Apanhas-me num dia em que me apetecem prazeres imediatos. Estou tão, mas tão furiosa com o descaramento e a imoralidade com que Trump falou sobre Zelensky e a Ucrânia, o escândalo daquela compra de petróleo à Rússia; tão desesperada com o maquiavelismo de Putin, tão incrédula pelo descaramento e falta de vergonha com que se atiram ao lixo regras de funcionamento democrático que levaram séculos a fortalecer, que estou disponível para afogar a mágoa na compra de um par de botas! Num shot de uma camisola nova. Avisa as minhas netas que, com esta disposição, lhes renovo o guarda-roupa. E de achar que todos os quilómetros são bem gastos, se elas encontrarem a felicidade na música, na dança ou no teatro. E se abomino o plástico, e me dói a alma quando vejo os arbustos nos campos alentejanos transformados em árvores de garrafas, neste segundo quase que encolho os ombros.

Sim, Ana, estou a misturar alhos com bugalhos, mas não tanto como imaginas. Sinto que muita desta ânsia consumista resulta de não estarmos realmente envolvidos e empenhados a por a mão na massa na resolução de um problema realmente importante. Quando somos militantes por uma causa concreta, readquirimos o foco, o fôlego, a coragem. A comunhão com os outros traz consigo uma recompensa enorme, que nos preenche e realiza, tornando tudo o resto mais ou menos irrelevante.

E só se chega lá pelo exemplo, e esse exemplo é muito mais difícil e custa muito mais do que entrar numa loja e comprar mais qualquer coisa — para nós e para eles. Como dizes, uma culpa que não leva à ação é só um desgaste inútil, como viajar numa cadeira de balouço imaginando que aquele movimento nos vai levar a algum lado. A “tia Bli” diz que temos todos de nos acalmar, mas hoje o que te digo é que temos é de fazer mais birras. Birras com princípio, meio e fim, como são as birras bem-feitas.


Siga no Instagram: https://www.instagram.com/birrasdemae/
Siga no Facebook: https://www.facebook.com/birrasdemae/