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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA: COMO FALAR ABERTAMENTE PARA PROTEGER OS NOSSOS FILHOS
Publicado em: 29/09/2026
A depressão e a ideação suicida são doenças, disso não tenho a menor dúvida, que tal como um cancro vão espalhando as suas metástases até ser tarde demais.
Querida Mãe,
Esta semana li aqui no Público um texto da psicóloga Vera Ramalho sobre o suicídio na adolescência e, mãe, senti logo vontade de lhe escrever, porque é nas Birras que conseguimos falar das coisas difíceis ou pensar em conjunto os temas que temos medo de enfrentar sozinhas.
O suicídio durante a adolescência é, sem dúvida, uma dessas grutas para as quais temos terror sequer de espreitar, como se ficássemos mais seguros se fingirmos que não existe. Mas, mãe, o que o artigo lembrava — e que me fez todo o sentido — é que tal como acontece com todos os grandes medos, torna-se mais suportável quando iluminamos a caverna com conhecimento, informação e conseguimos falar sobre tudo o que pode lá estar dentro. É exatamente essa luz que nos pode salvar.
Em Portugal, o suicídio representa uma em cada seis mortes de pessoas entre os 10 e os 29 anos, sendo a principal causa de morte por fatores não naturais em crianças e jovens adultos no país, superando até os acidentes de viação. O ano de 2022 teve um pico histórico de suicídios (é fácil perceber que a Covid foi um dos fatores relevantes). Se isto torna evidente que é fundamental abordar este assunto, tanto como sociedade como com os nossos filhos, há um fantasma que nos persegue sempre: a ideia de que ao falarmos sobre este assunto podemos estar a "dar ideias". Mas não é assim. Há evidência de que os meios de comunicação social e as redes sociais devem ter o maior cuidado em não glorificar ou expor detalhes de procedimentos, e que podem ter um efeito de replicação, mas a ciência é clara quanto a estes pontos:
#1 Falar sobre o suicídio de forma tranquila e aberta é uma das melhores apostas para protegermos os nossos adolescentes. Não só ajuda a pessoa a sentir-se menos isolada e mais compreendida, como, muitas vezes, é a partir daí que se podem construir pontes para que eles possam pedir ou aceitar ajuda.
#2 Não é preciso sermos os pais destes jovens para podermos ter um real impacto. Professores, tios, amigos devem estar atentos e agir quando percebem mudanças drásticas de comportamento, sintomas de desinteresse ou desabafos sobre como se sentem "um fardo" ou "como seria melhor já não estar cá". Que são para levar a sério.
#3 É importante falar com os nossos filhos sobre o que fazer no caso de serem testemunhas de alguém com estes sintomas ou que abertamente mostra sinais de estar a pensar no suicídio: convidá-los a partilhar a informação connosco para o ajudarmos a pensar como apoiar os amigos sem ficarem, também eles, assoberbados.
#4 Estar atento a qualquer desabafo que revele um plano de ação concreto, e não hesitar em alertar imediatamente os pais, ou mesmo levar o adolescente a uma urgência psiquiátrica.
#5 Os especialistas pedem muito para se ter muita atenção a uma "falsa melhoria", ou seja, a alguém com um quadro muito depressivo, mas que, de repente, pareça mais activo, mais enérgico, porque muitas vezes esse estado de espírito advém do alívio de uma decisão tomada.
#6 Por fim, a informação mais importante: a grande maioria dos jovens com ideação suicida não quer morrer. Só querem acabar com um sofrimento que lhes parece insuportável e interminável. Não é culpa nem do jovem nem da sua família, mas o resultado de muito sofrimento mental. Todos precisam de apoio e todos merecem ter pessoas que os ajudem a lembrar-se de que há uma luz ao fundo do túnel, mas nestes estados mentais as palavras não chegam, é precisa medicação, terapia, por vezes para segurança do próprio, até internamento.
Neste mês (ainda) de setembro dedicado à prevenção do suicídio, obrigada à Vera Ramalho pelo pedido para estarmos mais atentos.
***
Querida Ana,
Tens razão, este assunto não pode ser pensado a sós — o cérebro fecha-se imediatamente em negação, o coração não aguenta imaginar o sofrimento destas pessoas, nem a dor das suas famílias. E, no entanto, como dizes, temos de o enfrentar, para poder contribuir para o prevenir, porque a doença que leva a uma decisão tão fatal como a de acabar com a própria vida tem tratamento e tem cura. A depressão e a ideação suicida são doenças, disso não tenho a menor dúvida, que tal como um cancro vão espalhando as suas metástases até ser tarde demais. E vai nesse sentido a opção de se dizer, e escrever, que alguém “morreu de suicídio”, em lugar de afirmar que se suicidou, que transmite a ideia de que foi uma opção tomada de livre vontade. Um sofrimento desta intensidade e desta natureza retira a liberdade da escolha, por isso, não pode haver lugar para culpas e acusações.
Pormo-nos no lugar destas pessoas, destes adolescentes, é um exercício quase impossível, mas ajudou-me muito ler “Escuridão Visível: uma memória da loucura”, um ensaio autobiográfico de William Styron, autor de livros como "A Escolha de Sofia" e que quase se juntou à longa lista de escritores que se suicidaram. Styron, que foi salvo por um internamento hospitalar, garante que para quem está de fora é quase impossível entender o abismo da depressão, a crueldade das suas garras, o desespero e a desesperança que arrasta consigo, mas também assegura que, como dizes, só reconhecendo os sinais e compreendendo melhor a teia deste inferno podemos acolher este sofrimento indizível. E devolver a luz. Foi a tua tia que traduziu o ensaio do inglês, num momento em que estávamos todos angustiadamente à procura de respostas, e se o quiseres revisitar, deixo-te aqui o link: https://www.livroshorizonte.pt/produto/escuridao-visivel-uma-memoria-de-loucura/.
E é isso – vamos manter-nos mais atentos aos outros e não desvalorizar as dores dos adolescentes, como tantas vezes fazemos.
Até já, querida filha.
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