BIOGRAFIA
•
LIVROS
•
PRESS
•
ALBUNS
•
AGENDA
•
DIAS DO AVESSO
•
CRÓNICAS E ENTREVISTAS
•
CONTACTOS
CRÓNICAS E ENTREVISTAS
ENVELHECIMENTO E MEMÓRIA: DICAS PARA ACEITAR OS LIMITES DA IDADE COM HUMOR E SERENIDADE
Publicado em: 22/09/2026
Era bom que todos os filhos e netos soubessem exatamente o que me está a contar, para se sentirem mais seguros a lidar com os seus pais ou avós.
Querida Ana,
Quero falar-te de envelhecer. Uma coisa que acontece muito às avós. Quando a tua avó ficou mais velhinha e a ajudava a arranjar-se para se deitar, ela exigia que se pusesse cada peça de roupa num lugar preciso — a camisa nas costas da cadeira, a saia no assento, a carteira do lado direito e por aí adiante. Eu achava tudo aquilo obsessivo, mas à medida que envelheço percebo que era esta disciplina que lhe permitia manter-se autónoma e independente.
Agora que me esqueço de onde ponho tudo, começo a tentar desconfiar mais de mim mesma, e a precaver-me! Isso, desconfiar. Parece uma coisa má, mas não tem de ser, porque é mais um sensato reconhecimento dos nossos limites e das nossas novas circunstâncias. Dou-te um exemplo: já não tiro um fio do pescoço sem o ir por na caixa certa, sob risco de depois não fazer a menor ideia de onde o deixei, arrumo o porta-moedas no mesmo lugar da mochila para evitar aquele ataque de coração quando mergulho na carteira e não o encontro, ponho um alarme no telefone quando ligo a mangueira do jardim e já não arrisco deixar a água do banho a correr enquanto vou só fazer uma coisa qualquer.
Sim, Ana, dantes também me esquecia (e deixei transbordar a banheira várias vezes), mas a diferença é que dantes de repente plim, lembrava-me, e agora a memória desaparece completamente, não há aquele repentino sobressalto. Felizmente, por enquanto, com algum esforço consigo reconstituir o que se passou, e provavelmente é mais uma sobrecarga de estímulos e informação do que uma demência, mas deixa-me mais consciente do que nunca da paciência que os filhos/cuidadores necessitam de ter para lidar com a perda de capacidades dos mais velhos.
Ana, há dias ouvi um episódio do podcast (IN)pertinente, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, sobre “Falha de memória ou demência?”, e a neurologista Raquel Gil-Gouveia explicou, entre muitas coisas, que quando os nossos neurónios patinam e perdemos uma memória, o cérebro encarrega-se de ocupar a lacuna com memórias passadas que o próprio toma como absolutamente verdadeiras.
Ou seja, se numa consulta o médico pergunta a uma mulher que sempre fez o almoço para a família, em que é que ocupou o dia anterior, ela vai dizer-lhe que esteve a cozinhar para o marido e os filhos, mesmo que na realidade nem sequer seja já capaz de executar essa tarefa. É claro que o familiar fica estarrecido e apressa-se a desmenti-la, caindo na tentação de a confrontar com a suposta mentira, aflito e convencido de que se insistir, se der mais pormenores, ela vai cair na realidade. Mas que aquilo que devem perceber, para evitar confrontos que só desgastam e entristecem, é que a pessoa não mente. Para ela foi mesmo assim. Por isso é passar à frente.
Ana, sinto que os netos fazem isto com muito mais facilidade do que os filhos, porque para os netos os avós sempre foram velhos, e seja como for tanto lhes faz, enquanto os filhos tentam, até à última, manter “viva” a mãe ou o pai como sempre foram.
Mas a mim deu-me um alívio enorme saber que o cérebro nos faz esse favor, deixando-nos com uma certeza tranquilizadora em lugar de com o terror de um vazio. E isso é reconfortante. Por isso, por favor, não me contradigam, e podem começar já a treinar.
***
Querida Mãe,
Estava a ler a sua carta e a pensar como seria importante ter cursos pré-envelhecimento, pensado para os próprios, mas também para os filhos e netos. Iguais aos de preparação para o parto, em que se fala sobre como é que funciona o cérebro do bebé e dos pais, uma oportunidade para falarmos sobre o que acontece nestas novas etapas.
Julgo que ao contrário do que à primeira vista pode parecer, não aumentariam os nossos medos, pelo contrário, e deixávamos de nos assustar a cada pequeno esquecimento ou a cada dor de costas.
Aprendíamos a distinguir o que aceitar, e aquilo que pode, e deve, ser combatido, no sentido da prevenção, com receitas cientificamente comprovadas como manter o exercício físico e evitar o isolamento social. Era bom que todos os filhos e netos soubessem exatamente o que me está a contar, para se sentirem mais seguros a lidar com os seus pais ou avós.
É claro que nada disto é tão simples ou "fofinho" como quando falamos de bebés, e a comparação deve ser feita com muito cuidado porque não queremos ser condescendentes para com quem tem mais anos, mais experiência e mais caminho feito do que nós.
E não é simples, não só porque há variantes enormes de pessoa para pessoa, enquanto com as crianças o desenvolvimento padrão é mais linear, mas sobretudo porque é muito difícil libertarmo-nos das dinâmicas que temos com os nossos pais. E, como diz, não os queremos perder.
Mais ainda, queremos manter o estatuto de filhos! Por exemplo, eu quero contradizê-la todo o tempo que puder, e só aceito deixar de o fazer quando for estritamente necessário, com papel passado pelo médico! Por isso, combinamos assim, a mãe adopta a frase da minha avó paterna que aos 86 anos dizia "Quando eu for velhinha...", recusando-se a envelhecer. Boa?
Siga no Instagram: https://www.instagram.com/birrasdemae/
Siga no Facebook: https://www.facebook.com/birrasdemae/
Leia no site do Público »