CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 VENHA DAÍ A TESTOSTERONA!
Publicado em: 22/07/2026
As “vulnerabilidades da plataforma” foram suficientes para justificar a falta de correção dos exames a tempo e horas, mas a verdade é que nada bate os “algoritmos”, seres tão extraordinários que aparentemente explicam tudo.


Já estou com pena da Inteligência Artificial e dos seus parentes próximos, que têm as costas largas. Porque hoje ninguém comete erros. Nem tem culpa de nada. Se alguma coisa corre mal, aponta-se o dedo a esta “máquina” que a maioria de nós não faz a menor ideia de como funciona ou sequer o que é — um mega-computador, um robot, pouco importa, o que interessa é que é um excelente bode expiatório para todo o serviço. E não se queixa.
A prova de Física do 11.º ano foi mal classificada porque houve “problemas de parametrização”, anunciou o Ministério da Educação. A resposta errada foi dada como certa e a certa como errada, mas ninguém tem responsabilidade na troca, nem tão pouco nos critérios mal introduzidos no programa de classificação digital.
O comum dos mortais suspeita que os “parâmetros” são como que filhos bastardos do “sistema”, essa entidade omnipresente nas nossas vidas e que, para nosso azar, depende de servidores sistematicamente “em baixo”. Um sistema em baixo impede-nos, por exemplo, de receber uma consulta médica mesmo quando o próprio médico está à nossa frente, de tratar da carta de condução ou de um qualquer documento, mesmo que nos ofereçamos para preencher o formulário à mão, e por aí adiante.
Por exemplo, as “vulnerabilidades da plataforma” foram suficientes para justificar a falta de correção dos exames a tempo e horas, mas a verdade é que nada bate os “algoritmos”, seres tão extraordinários que aparentemente explicam tudo, desde um crash na Bolsa à eleição das criaturas mais diabólicas. Aliás, o seu poder é tal que conseguem obliterar o nosso sentido crítico e, até, pôr em causa o livre arbítrio. Na versão moderna do Livro do Génesis, Adão, Eva e a serpente não cometeriam qualquer pecado, limitando-se a ser vítimas de um clickbait perfeito, da otimização da taxa de conversão (CTR) da fruta proibida, armadilhados pelo “efeito de contágio social”. Até a cobra escapava à pena de rastejar por toda a eternidade — quando muito, era convocada para uma audição parlamentar.
Mas o pior é que a inteligência humana que era suposto controlar a outra também anda pelas ruas da amargura, como mais uma vez comprovou esta semana Pete Heghset, secretário da Guerra dos EUA – porque da Defesa era coisa para meninas. Em lugar de perder tempo a esclarecer-nos como vai abrir o estreito de Ormuz e sair do sarilho em que nos meteu, decidiu anunciar ao mundo que é seu “dever sagrado” – sagrado, note-se – rastrear e suplementar com testosterona os “melhores e mais fortes guerreiros do mundo”. Seria caso para dizer que pretende militares de barba rija, não fora o facto de ter convocado os generais e almirantes dos quatro cantos do planeta para lhes dizer que só quer homens de cara rapada.
Enquanto isto, o seu amigo RFK Jr. não podia ter ficado mais contente, porque há muito tempo que assegura que a carência da hormona é uma “ameaça existencial para a espécie humana”, e propõe-se liberalizar a venda deste suposto elixir da virilidade, que conheceu um aumento de vendas brutal, sobretudo entre os jovens com menos de 35 anos que ambicionam tornar-se Rambos. Pensando bem, a obsessão por uma “substância” que aumenta a impulsividade e reduz a perceção de risco enquadra-se perfeitamente numa administração que, claramente, interpreta a reflexão e a ponderação como sinais de fraqueza. Desde que a responsabilidade não seja nossa, vale tudo — venha daí a testosterona.