CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 COMO ESTAR PRESENTE PARA QUEM PERDEU UM FILHO SEM USAR PALAVRAS VAZIAS
Publicado em: 05/05/2026
Respeitar o luto dos outros é um desafio dificílimo, maior ainda num tempo tão acelerado como o nosso, em que estamos habituados a encontrar soluções instantâneas para todos os problemas.


Querida Mãe,

No Dia da Mãe, saiu o primeiro single do meu novo EP. (Mãe, um EP é um disco, mas com menos canções). A música chama-se Words e uma parte da letra diz “Words won’t help me today, words are full of doubt”. Escrevi-a para uma das minhas melhores amigas quando ela passou pelo pior pesadelo de qualquer família, perder um filho.
O que aprendi, ao testemunhar a sua dor, foi que por mais que amemos alguém, não conseguimos partilhar a experiência a não ser que passemos por ela. As palavras tornam-se ocas. E quando não temos palavras só podemos oferecer a nossa presença. Mas não é confortável ficar na dor de alguém. Ficar ali ao lado sem conseguir resolver, acelerar o processo ou curar. Por isso vamos atirando palavras que, na melhor das hipóteses, não fazem sentido para quem está naquele sofrimento e, na pior, são facas que se espetam na ferida, por muito boas que sejam as intenções.
Mãe, eu sei que não há manuais porque cada pessoa vive o luto da sua maneira, mas pelo que testemunhei, pelo que leio, há algumas armadilhas comuns que podemos aprender a evitar. Frases como “Ah, mas pelo menos ainda tens os outros”, “Pelo menos ainda foi na gravidez”, “Ainda era pequeno”, “Mas podes tentar outra vez” ou mesmo o “Já estás melhor?” (como se de uma gripe se tratasse) são receitas infalíveis para que estas famílias se sintam ainda mais sozinhas, ainda menos compreendidas.
A dor e o luto destas mães e pais não vai passar. Nunca. E isso assusta toda a gente. O meu desejo é que essa consciência nos tire as palavras vãs, mas não a coragem de permanecer. E como não há palavras, deixo a canção. https://www.youtube.com/watch?v=cG_oY2EEDgc&list=RDcG_oY2EEDgc&start_radio=1

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Querida Ana,

Obrigada por teres lançado este single (agradeço os esclarecimentos sobre o que é um EP), nesta altura, que é de um sofrimento indizível para todas as mães que perderam um filho. Como dizes, quem está de fora não pode fazer mais do que imaginar, mas como acontece com todos os pesadelos esse esforço é sempre interrompido no momento fatal, porque não temos informação para preencher o que não conhecemos. O que pedes, em lugar disso, é muito mais difícil de oferecer — estar presente, e simultaneamente não preencher o vazio com o que nos vem à cabeça, numa tentativa de colocar um penso rápido na ferida e andar para a frente. Respeitar o luto dos outros é um desafio dificílimo, maior ainda num tempo tão acelerado como o nosso, em que estamos habituados a encontrar soluções instantâneas para todos os problemas. Não conseguir ajudar alguém que amamos é mesmo complicado, mas a morte deixa claro que não temos outro remédio senão aceitar a nossa impotência.
Como dizes, não há manuais nem receitas, mas nas reportagens e entrevistas com mães em luto que fiz ao longo dos anos há duas coisas que todas pedem: que não se deixe de falar da criança que morreu, por medo de as magoar, quase como se ao desaparecimento físico se somasse o da inexistência, e permitir-lhes que repitam as vezes que sentirem necessário as mesmas histórias, as mesmas recordações, sem procurar que “mudem de assunto”, como se fosse possível “distraí-las”.
Só mais uma coisa — não é nada fácil ser a mãe, o pai, os irmãos, a melhor amiga de alguém que passa por este horror — mãe ou pai! —, e embora a sua dor seja incomparavelmente maior, a delas também é real. Mas o que têm de perceber (eu tive de perceber em situações parecidas) é que também podem e devem procurar ajuda para si próprias, com quem desabafar, a quem pedir conselho, em lugar de imaginarem que é um sofrimento irrelevante ou, pior, esperarem que seja a pessoa em luto que ainda vá ter a energia para as consolar a elas. Como me explicaram, e ajudou-me a entender, é ver a pessoa em luto no centro, rodeada de círculos progressivamente maiores, das pessoas mais próximas para as mais distantes, e a tristeza e a ansiedade a passarem de dentro para fora, e não o contrário. Quando conseguimos obter ajuda para nós próprios, aguentamos melhor ser apenas a tal presença, sem esperar que seja a pessoa em (maior) luto a sossegar-nos com um falso “Está tudo bem”, ou um “Já passou”. Porque, como tu dizes, não passa nunca. Obrigada pela tua canção e por teres ligado os holofotes sobre estas mães, dando-nos a oportunidade de cantar para elas.


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