CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 OS POLÍTICOS DEPENDENTES NÃO NOS PODEM DEFENDER DAS REDES SOCIAIS
Publicado em: 15/04/2026
O chanceler alemão deseja congratular-se pela derrota de Orbán, felicitar o vencedor e convocá-lo para uma conversa. Como sabemos? Porque o disse na rede X, que pertence a Elon Musk.


Donald Trump quer declarar uma guerra ou fazer queixinhas alucinadas contra o Papa Leo, e a quem recorre? À Truth Social, evidentemente. Que lhe pertence.
O chanceler alemão deseja congratular-se pela derrota de Órban, felicitar o vencedor e convocá-lo para uma conversa. Como sabemos? Porque o disse na rede X, que pertence a Elon Musk.
O presidente Macron também agradece ao senhor da Tesla o favor de o deixar proclamar que deseja um acordo rápido para reabrir a navegação no estreito de Ormuz, em que é secundado, na mesma plataforma, por Keir Starmer que, já agora que ali estava a dedilhar, aproveitou para desejar aos Sikhs “paz, felicidade e prosperidade neste Valsakhi”.
Putin manda usar o Telegram para nos ameaçar, de tempos a tempos, com uma bomba atómica, e Zelensky emprega todas as redes sociais a que consegue deitar mão, no esforço de se fazer ouvir, num momento em que infelizmente passou para segundo plano na agenda mediática.
Por cá, Luís Montenegro usa as redes para faz declarações ao país, tal como os seus predecessores, porque da direita à esquerda ninguém já consegue sobreviver politicamente fora desta teia, mesmo quando exige dar um pezinho de dança no TikTok, indiferentes a bailarem ao som de um alaúde chinês.
Onde quero chegar com esta lista de colunáveis? À constatação de que não podemos acreditar que serão os peixes apanhados na rede, aqueles que dependem das empresas que dominam este admirável mundo, a exigirem-lhes contas, ou a limitá-los, por muito que anunciem o contrário, numa versão ao estilo do “Agarrem-me senão eu mato-os”.
Depois de terem movido a sua comunicação para estas plataformas, fazendo delas o palco da política mundial, da diplomacia e dos negócios, após terem sido engolidos por uma tecnologia que nem eles, nem o comum dos mortais, faz ideia de como realmente funciona, vêm manifestar-se chocados com o declínio do número de leitores de jornais, com a ausência de informação profissional e credível que faça frente à praga das fake news, alertar para o perigo da manipulação dos eleitores por inimigos da democracia. Escondendo, com dificuldade, a felicidade que lhes dá poderem dizer o que entenderem, sem terem de aturar jornalistas ou passar por qualquer crivo independente que garanta, pelo menos, a verdade dos factos.
Mas mais hipócrita ainda, armam-se em defensores dos direitos das crianças e dos adolescentes, proclamando que, afinal, nada do que se passa naquele cabaret é para menores de 16 anos. Que o espaço que os maiores líderes mundiais elegem para decidir as coisas importantes, não é próprio para crianças e adolescentes e, portanto, lhes deve ser interdito.
Porque se dão sequer a esse trabalho? Porque o descontentamento dos pais e educadores e a evidência científica, os obriga a fingirem-se preocupados. É, basicamente, como vender cigarros, enquanto se financiam campanhas contra o cancro do pulmão.
Nota de rodapé – À conta desta minha divagação aprendi uma palavra nova – “Twiplomacy, o uso da plataforma X para fazer política internacional”. Fica condicionada a 280 caracteres por tweet, mas como temos visto chega e sobeja para que qualquer homem das cavernas anuncie que vai destruir uma civilização inteira.