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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
A COUTADA DO MACHO IBÉRICO
Publicado em: 01/04/2026
Seguramente que alguns “estrangeiros” tratam mal, mesmo muito mal, as suas mulheres, mas desde quando é que todos os portugueses as tratam bem?
Este é um texto indignado. Indignado com a incapacidade de aplicarmos um raciocínio lógico aos problemas, de nos deixarmos arrastar por ideólogos que sabem por o dedo nas nossas feridas e ampliar os nossos medos. Refirmo-me, desta vez, à forma como alguns políticos andam por aí a clamar que a violência sobre as mulheres começou ontem, quando se abriram as fronteiras. As “nossas mulheres”, como disse recentemente um apoiante do Chega à CNN, viviam como nos jardins do Paraíso, até que chegaram “estrangeiros” que as começaram a perseguir, violar e matar. Será que é isso que mais os incomoda? A concorrência num país que até foi descrito numa sentença de um tribunal português como “a coutada do macho ibérico”, explicando assim o sequestro e violação por nacionais de duas turistas jugoslavas, no Algarve.
Seguramente que alguns “estrangeiros” tratam mal, mesmo muito mal, as suas mulheres, mas desde quando é que todos os portugueses as tratam bem?
Talvez desde o sábado passado, em que Ana, de 28 anos e mãe de um bebé de 18 meses, foi assassinada pelo companheiro em Castelo de Vide, apesar de já ter apresentado queixas por agressões. Ou, terá sido desde o dia 4 de fevereiro, data em que uma mulher de 43 anos foi morta pelo namorado, aparentemente por ciúmes. Desculpem, provavelmente só começaram em janeiro de 2026, com o homicídio de uma mulher de 53 anos em Melgaço, pelo seu ex.
A lista de vítimas podia continuar, tristemente longa, porque infelizmente a violência contra as mulheres, ao ponto de lhes roubarem a vida, não é responsabilidade dos que vêm de fora, dos outros. Para lá da ancestral epidemia de violência doméstica, em 2025 morreram 26 mulheres por feminicídio, mais de duas por mês, num total de 709 mulheres assassinadas entre 2002 e 2025, e pior ainda se andarmos mais para trás no tempo. Mortas por homens, mais cruel do que isso, pelos “seus homens”, porque estes crimes foram perpetrados por maridos, companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Em 80% tanto a vítima como o agressor eram portugueses, e nos restantes 20%, a vítima e o agressor eram ambos “estrangeiros”. Mais, muitas foram assassinadas em casa, estatisticamente tornando o lar, doce lar, no lugar mais perigoso para uma mulher. Desprotegidas pela família, pelos amigos e pelas autoridades, porque na grande maioria destes casos existia violência prévia conhecida.
Ah, pois, e tal, mas afinal se os “estrangeiros” não matam, deixando essa prerrogativa para os nacionais, seguramente violam, dirão os que acreditam na retórica de André Ventura que afirma que “boa parte destes crimes foram cometidos por imigrantes”. Os números das violações em Portugal são, de facto, preocupantes, como já o são há décadas, mais ainda se tivermos em conta que se estima que as queixas apresentadas representam apenas um terço dos casos, mas também aqui, em 71% dos casos, as vítimas conheciam bem o agressor, e de novo, ele é maioritariamente português.
Onde se encontra a grande diferença, que altera completamente a nossa perceção do problema, é na forma como a história é contada: quando um ex-polícia francês vem a Portugal matar a mulher e a ex-mulher à frente dos filhos, não assistimos a discursos políticos, nem a posts nas redes sociais a afirmar que os franceses são todos uns facínoras. Responsabilizamos o individuo, ponto final. Mas já se o criminoso lhes soasse “islâmico”, era certo que se alegaria que o seu comportamento resultava de uma suposta “identidade cultural/religiosa”, numa interpretação ignorante e abusiva Fomenta o ódio ao que vem de fora, e deixa por resolver as verdadeiras causas da violência contra as mulheres, num tempo em que, paralelamente, a ideologia do “macho” ganha assustadoramente terreno entre os mais jovens.
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