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CRÓNICAS E ENTREVISTAS
É TUDO CULPA DO ALGORITMO?
Publicado em: 10/03/2026
No meio destas guerras e da insanidade mental destes ditadores, estou gratíssima à máquina que evita que me tenha de cruzar nas redes sociais com energúmenos que defendem o indefensável.
Querida Ana,
Toda a gente anda a fazer birras contra o “Algoritmo”. É tudo culpa do algoritmo que, supostamente, nos conhece melhor do que nós a nós mesmos, aliás, de tal forma bem que só nos mostra aquilo que queremos ver. Encarrega-se de nos fazer felizes de forma tão perfeita que nunca nos desmente, nem nos obriga a confrontarmo-nos com factos contrários às nossas preciosas “verdades”, nem nos provoca expondo-nos a opiniões contrárias.
Compreendo perfeitamente, querida Ana, que isto é uma coisa terrível, que nos torna egocêntricos e narcísicos, convencidos de que os nossos neurónios superam os de toda a gente e a alinhar apenas com quem pensa como nós; percebo, também, que quando nos servem apenas o que queremos, cortam pela raiz a possibilidade da descoberta, da surpresa, e até a hipótese de mudarmos de opinião, face a outros pontos de vista. Pois é, querida filha, entendo tudo isto, mas no meio destas guerras e da insanidade mental destes ditadores, estou gratíssima à máquina que evita que me tenha de cruzar nas redes sociais com energúmenos que defendem o indefensável. Dentro e fora das nossas fronteiras.
Por isso, para ser sincera, a única coisa que lamento neste preciso momento em que te escrevo é que o dito Algoritmo não se estenda às pessoas de carne e osso. Não percebes o que quero dizer com isto? Explico-te já. Precisava que inventassem rapidamente um mecanismo qualquer de me apartar fisicamente de qualquer pessoa que seja a favor de Donald Trump e da sua pandilha, de Vladimir Putin e dos seus amigos e, mais ainda, de Bibi Netanyau e da sua trupe e, é claro, dos seus imitadores nacionais.
Pronto, e é isto. Mas para que esta carta seja uma Birra com moral da história, diz-me tu se é mesmo necessário ensinarmos os nossos filhos e netos a serem sempre tolerantes.
Um abraço apertado,
Mummy
***
Querida Mãe,
Subscrevo! Estamos mesmo com tudo a mais. Roupa a mais, informação a mais, ganância a mais, trabalho a mais, lixo a mais, tralha a mais, pó a mais, desinformação a mais… Até amigos estou a sentir que tenho a mais, não porque não os adore a todos, mas porque não há como não sentir que estou a falhar a alguns.
Não fomos feitos para tantos estímulos. Não há possibilidade nenhuma do nosso cérbero conseguir processar tudo isto, sem produzir níveis perigosos de cortisol — não é por acaso que a ansiedade e as perturbações psiquiátricas estão ao rubro.
Sim, se calhar precisamos de mais algoritmo na nossa vida real. Que exclua as coisas que não nos dão prazer, não nos fazem rir, com as quais não nos identificamos. Às vezes, apetece pôr a cabeça na areia durante um bocado de tempo, mesmo que ao que parece as avestruzes não o façam.
É evidente que é um privilégio poder desligar, mas também é verdade que nos devemos preocupar sobretudo com as pessoas que estão perto de nós, aquelas que nos envolvem e com quem podemos construir uma relação consistente. A vizinha da frente que encontramos todos os dias; a mãe dos amigos dos nossos filhos que anda nitidamente a precisar de um sorriso, de uma boleia, ou de uma mãozinha a por as compras no carro.
Eu sei, não é politicamente correto dizer isto. Fica bem abraçar todas as causas — uma por semana —, e não é de forma alguma errado fazê-lo, só que não é sustentável. Nem para a nossa saúde mental, nem em relação à diferença real que podemos realmente fazer.
Voto num algoritmo que nos crie uma bolha boa e sugiro que de três em três meses troquemos de algoritmo com alguém! Assim conseguimos ver as coisas pelos olhos dos outros e, isso sim, é algo a cultivar.
Um abraço apertado também para si.
Ana
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