CRÓNICAS E ENTREVISTAS

 PASSAR PELA MENOPAUSA PARA SER AVÓ
Publicado em: 13/01/2026
Abrirmo-nos, expormo-nos e perguntar, nem sempre é fácil e acarreta consigo o risco de termos de ouvir conselhos que não nos interessam e, por vezes, julgamentos que dispensávamos bem.



Querida Mãe,

Acabei de realizar uma coisa: não sei nada sobre a menopausa. Ou sei muito pouco. Sei que não é um assunto tabu entre nós e que, felizmente, começa a ser cada vez mais falado publicamente, mas com a arrogância típica dos mais novos, achamos sempre que é qualquer coisa de muito distante, até que, claramente, deixe de ser!

Não tenho dúvida nenhuma de que o ChatGPT me faria um resumo, enumeraria sintomas e recomendações, mas parte da missão destas nossas birras é relembrar a toda a gente que há perguntas que valem a pena colocar a pessoas de carne e osso, que já passaram por experiências semelhantes; gente que partilha a nossa forma de viver e que para lá da informação, têm a mais-valia de se interessarem genuinamente por nós, criando um espaço para falarmos das nossas preocupações e do que nos vai na cabeça. E é essa conexão, querida mãe, que nos ajuda a ultrapassar os problemas sem nos sentirmos sozinhas.
Sim, claro, abrirmo-nos, expormo-nos e perguntar nem sempre é fácil e acarreta consigo o risco de termos de ouvir conselhos que não nos interessam e, por vezes, julgamentos que dispensávamos bem, e é claro que há o risco de recebermos de mães e avós informações desatualizadas. Mas, mais uma vez, é nessa troca que as pessoas crescem e aprendem.

Por isso, mãe, o que posso esperar da peri-menopausa/menopausa? O que gostava de ter sabido? O que lhe meteu mais medo, e o que é que até foi bom?
Beijinhos, Ana

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Querida Filha,
A primeira coisa que tenho para te dizer é que te estás a dirigir à pessoa certa, dado que só há duas ou três espécies que passam pela menopausa e vivem para contar — as mulheres e as orcas/baleias (e umas primas delas). Todas as outras desaparecem quando deixam de procriar. E sabes porquê é que há estas exceções? Para poderem ser avós, não é lindo? Para ajudarem os filhos a criar os netos, porque tanto as crias humanas como as crias orcas/baleias são muito dependentes até muito tarde, e basicamente dão muito trabalho. E, claro, para podermos responder a perguntas como as que agora me fazes.
Mas a verdade é que esta história das avós/menopausa também contém em si mesma o pecado-original do preconceito que começamos agora a derrubar: supostamente, a natureza ter-nos-ia concedido o direito à existência desde que nos conformássemos ao papel de cuidar da nova geração, quase pressupondo que se não o fizermos (se nem sequer tivermos sido mães, por exemplo), realmente já cá não ficamos a fazer nada.
E, se reparares, ainda há muitas mulheres a esconderem os sintomas, a terem vergonha de falar deles ou de procurar ajuda médica para os superar, como se o seu prazo de validade fosse determinado pelo prazo de validade dos seus ovários, como se sexualidade e reprodução fossem a mesma coisa, que decididamente não são. Por vezes, temo que apesar de estarmos aparentemente mais abertos a falar de menopausa, inclusive nas páginas dos jornais, esteja a crescer simultaneamente uma força contrária, que só atrapalha: um culto doentio da juventude, que impede de aceitarmos o envelhecimento.
Mas por agora, adiante — fizeste-me perguntas diretas e vou dar-te respostas diretas. Quanto ao que podes esperar, em termos fisiológicos varia muito de mulher para mulher, mas basicamente quando passamos a produzir menos estrogénios, percebemos que fazem falta para tudo, desde lubrificar os olhos, às articulações, passando pelo aparelho urinário e vaginal, até para equilibrar o humor, o peso, o sono e por aí adiante. Pode facilmente instalar-se um círculo vicioso em que já não se sabe o que é a causa e a consequência, mas como escreve a médica obstetra Lisa Vicente, autora da “Revolução da Menopausa”, que recomendo, cada caso é um caso e, para quase tudo, há soluções à medida. O importante é não cruzar os braços, imaginando que se trata de uma fatalidade, a suportar sem queixas (do estilo “ah, é natural, é para aguentar!”). No meu caso, a terapia hormonal de substituição feita durante uns anos funcionou extraordinariamente bem, e em 2025 surgiram mais estudos que permitem desfazer muitos dos perigos que lhe foram erradamente associados.
Queria só contar-te aquela que foi a coisa melhor e a pior da menopausa. A pior, em termos psicológicos, foi pensar que não ia ter mais filhos — racionalmente era completamente absurdo, porque nem sequer queria ter mais bebés, mas quando falta um período menstrual ainda se corre a fazer um teste de gravidez e quando é (obviamente) negativo, sente-se um nó na garganta. E chora-se. Pronto, é um luto, e vendo bem as coisas não admira que depois vivamos as gravidezes e o nascimento dos filhos dos nossos filhos com tanta intensidade e emoção.
A coisa melhor é exatamente a mesma — nem imaginas a alegria de nos vermo livres dos contraceptivos, do medo de engravidar, das enxaquecas e dos sintomas do síndrome pré-menstrual e de tudo o que lhe está associado. Genuinamente, pelo menos para mim, é uma fase fabulosa, e todos os dias dou graças por ter sido dispensada da roleta russa hormonal.
Continuamos esta conversa brevemente? Há muito mais para dizer, mas deixo-te digerir esta informação, e em breve voltamos ao assunto numa nova birra.


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